Um estudo científico recentemente divulgado em formato de preprint propõe uma reavaliação técnico-pericial da morte de Kurt Cobain, vocalista e guitarrista da banda Nirvana. O trabalho, conduzido por uma equipe multidisciplinar composta por especialistas em análise de padrões de manchas de sangue (Bloodstain Pattern Analysis – BPA), balística forense, patologia, toxicologia e reconstrução de cena de crime, sustenta que os achados técnico-científicos são mais compatíveis com homicídio seguido de encenação (staged suicide) do que com suicídio autoinfligido.

Contexto Histórico do Caso
Cobain foi encontrado morto em 8 de abril de 1994, na estufa localizada acima de sua garagem, em Seattle, Washington (EUA). O óbito foi estimado para 5 de abril de 1994. À época, o caso foi investigado pelo Departamento de Polícia de Seattle (SPD) e pelo Médico Legista do Condado de King, sendo oficialmente classificado como suicídio por disparo intraoral de espingarda, associado a níveis considerados letais de heroína no exame toxicológico.
Entretanto, a divulgação posterior de fotografias da cena (2014 e 2016), do relatório de autópsia (2023) e do laudo balístico completo (2025) permitiu uma reanálise técnica independente com base em documentação oficial.
Metodologia da Reavaliação
O estudo fundamenta-se exclusivamente em documentos e imagens de domínio público, incluindo:
- Fotografias originais da cena do óbito;
- Relatórios policiais;
- Relatório de autópsia (com lacunas documentais);
- Laudo de exame de arma de fogo;
- Análise morfológica digital de manchas hemáticas;
- Testes experimentais com espingarda modelo equivalente.
A arma envolvida foi identificada como uma Remington M11 calibre 20, equipada com compensador Cutts.
Principais Achados Técnico-Científicos

1. Análise Balística e Funcionamento da Arma
A Remington M11 opera por sistema de recuo longo do cano. Em testes experimentais realizados com arma equivalente, verificou-se que a obstrução do cano durante o disparo — como ocorreria se a vítima estivesse segurando o cano próximo ao compensador — impede a ejeção do estojo deflagrado.
No entanto, o estojo foi encontrado fora da arma na cena, o que sugere que o mecanismo de recuo não estava impedido no momento do disparo. Essa constatação é considerada incompatível com o cenário descrito na hipótese oficial de suicídio.


2. Padrão de Backspatter (Retroprojeção Hemática)
Em disparos intraorais com contato ou quase contato, espera-se a ocorrência de backspatter significativo, caracterizado por projeção retrógrada de sangue e tecido biológico sobre:
- A arma;
- As mãos do atirador;
- Superfícies adjacentes.
Embora haja indícios de material biológico nas aberturas do compensador, não foram observadas manchas compatíveis com backspatter nas mãos da vítima, especialmente na mão esquerda — que, segundo a versão oficial, estaria segurando o cano da espingarda no momento do disparo.
Adicionalmente, foram identificadas manchas com características de transferência (transfer stains), sugerindo contato posterior com superfícies ensanguentadas.


3. Inconsistências na Distribuição das Manchas de Sangue
A análise digital das imagens revelou:
- Mancha por transferência na perna esquerda da calça jeans;
- Ausência de saturação hemática esperada para um disparo intraoral com lesão encefálica extensa;
- Indícios de manipulação post mortem do corpo.
Segundo o estudo, tais elementos são mais compatíveis com movimentação do cadáver após o evento primário.


4. Trajetória do Disparo
O relatório de autópsia descreve ferida de entrada no palato duro superior, com trajetória aproximada de 35° em relação ao eixo corporal.
Literatura especializada indica que:
- Suicídios intraorais tendem a apresentar ângulo médio de aproximadamente 60°;
- Homicídios costumam apresentar trajetória mais horizontal (próxima a 90°).
A angulação observada foi considerada atípica para o padrão suicida clássico.

5. Lesão Puntiforme no Antebraço Esquerdo
Foi identificada lesão puntiforme no antebraço dorsal proximal esquerdo, compatível com injeção por seringa com colar (Luer-lock). A morfologia da marca sugere aplicação intramuscular com inserção profunda.
Na cena, foram encontradas apenas seringas do tipo insulina (agulha fixa), morfologicamente diferentes da lesão observada.
Essa discrepância levanta questionamentos sobre o instrumento efetivamente utilizado para administração da heroína.
Hipótese Reconstrutiva Proposta
Com base na integração dos achados, os autores propõem o seguinte cenário alternativo:
- A vítima teria sido injetada com dose potencialmente letal de heroína por terceiro;
- Após perda de consciência ou colapso, teria ocorrido disparo intraoral com espingarda;
- O corpo teria sido removido e reposicionado na estufa;
- A cena teria sido organizada para simular suicídio.
Considerações Forenses
O estudo destaca que investigações de suicídios encenados exigem alto nível de expertise em:
- Reconstrução de cena de crime;
- Análise de padrões hemáticos;
- Interpretação balística dinâmica;
- Integração médico-legal.
Segundo os autores, limitações técnicas, ausência de documentação fotográfica completa e eventual inexperiência investigativa na época podem ter contribuído para uma classificação equivocada da causa jurídica da morte.
Conclusão
A análise multidisciplinar apresentada no preprint conclui que os elementos técnico-periciais disponíveis são mais consistentes com homicídio seguido de encenação do que com suicídio autoinfligido.
Os autores ressaltam que a limitação de acesso integral às fotografias originais da cena impede conclusão absolutamente definitiva, mas sustentam que, sob critérios científicos contemporâneos de reconstrução forense, há inconsistências significativas na narrativa oficial.
Relevância para a Comunidade Forense
Este caso reforça a importância de:
- Documentação exaustiva da cena;
- Preservação integral de evidências;
- Reavaliação periódica de casos emblemáticos à luz de avanços metodológicos;
- Formação especializada em detecção de suicídios encenados.
A discussão permanece aberta na comunidade técnico-científica internacional.

